Verdade Suprema: o retrato do fanatismo

Nos anos 90, essa seita bizarra foi responsável por um ataque terrorista no Japão que matou 13 pessoas e feriu mais de 5 mil. Em tempos de fanatismo ideológico no Brasil, precisamos tentar entender o que faz alguém pagar para beber sangue de um pregador.

Símbolo da seita Verdade Suprema

Cristo de Tóquio

O japonês Shoko Asahara, líder da seita Verdade Suprema, escolheu usar esse nome após uma peregrinação que fez pelo Himalaia. Embora seu nome original seja Chizuo Matsumoto, ele se autonomeou Deus da Destruição, Cristo de Tóquio, Papa Sagrado e Salvador da Nação. Nos anos 80, Asahara entrou na seita religiosa Agonshu, mas pouco tempo depois decidiu fundar sua própria religião, que acabaria conhecida como Verdade Suprema (ou Aum Shinrikyo, no termo original). A primeira fase do grupo foi de popularidade e certo reconhecimento pela sociedade japonesa: recebeu autorização do governo para existir e tentou emplacar membros no parlamento. O grupo também atraiu jovens de classe alta, mas quando essas tentativas falharam deu uma guinada para uma atuação muito mais extrema.

Ideais malucos

A filosofia da Verdade Suprema consistia numa crença híbrida de hinduísmo, budismo e cristianismo, além de referências aos escritos do monge cristão Nostradamus, famoso pelas predições que realizou no século 16. Mas a seita atraiu membros, principalmente, pelo discurso apocalíptico: Asahara dizia que o mundo seria palco de uma guerra nuclear e a humanidade estaria fadada à destruição. Claro que apenas aqueles que seguissem seus ensinamentos estariam salvos. Chegou a comandar em torno de 50 mil membros. Alguns seguidores mais fanáticos chegavam a pagar para beber a água que Asahara utilizava para se banhar. Outros pagavam para beber o sangue dele.

Seita criminosa

A maior atrocidade do grupo aconteceu em março de 1995, quando integrantes da seita realizaram um ataque terrorista no metrô de Tóquio. Eles embarcaram em cinco linhas diferentes, carregando sacolas com sarin, uma arma química. Ao ser liberada, a substância evaporou e infectou os vagões e as estações por onde os metrôs paravam. O ataque resultou em 13 mortes e mais de 5 mil feridos. Aquela não tinha sido a primeira maldade da Verdade Suprema. Depois do ataque, autoridades japonesas ligaram o grupo a uma série de crimes não resolvidos, como o assassinato de um advogado japonês, que havia ajudado famílias a tentar resgatar filhos desse culto.

O QUE O SÍMBOLO SIGNIFICA: Durante sua viagem pelo Himalaia, Asahara foi muito influenciado pelo hinduísmo, uma religião praticada principalmente na Índia. Tanto que o nome original do grupo, Aum Shinrikyo, carrega essa influência: “Shinrikyo” significa “verdade suprema” em japonês, “aum” é uma sílaba mística, usada durante a leitura de textos sagrados hindus e meditações. Essa sílaba também aparece no emblema original da seita (acima), que virou símbolo de terror. Depois do ataque no metrô, diversos membros da Verdade Suprema foram presos e seu líder foi condenado à morte, em 2004. Aum Shinrikyo foi executado na manhã de 6 de julho de 2018. Segundo a agência de notícias EFE, outros seis dos 13 membros da seita condenados à morte foram também enforcados. A seita, entretanto, apenas precisou mudar de nome e continua a existir, agora chamada Aleph. Os caras mantêm um site (aleph.to) para arrebanhar novos membros.

Fonte: Diego Meneghetti/Super Interessante/Editora Abril

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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