Violência cresce na pandemia e Nordeste lidera aumento

Violência em franco crescimento em período de pandemia (imagem: Justificando.com)

Se imaginávamos que o fato de haver menos pessoas nas ruas implicaria na diminuição da violência, tal teoria foi rechaçada com os dados divulgados pelo portal G1, a partir de informações coletadas nas diversas secretarias de segurança país a fora. Nos meses de fevereiro, março e abril, em plena quarentena, Brasil tem alta no número de assassinatos. Em fevereiro, foram 4.001 assassinatos contra 3.275 no mesmo mês do ano passado. Em março, já em pleno distanciamento social, foram 4.151 mortes contra 3.729 registradas no período de 2019. Em abril deste ano, a violência ceifou a vida de 3.950 pessoas, contra 3.656 no abril de 2019.

Apesar do distanciamento social, homicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte preenchem os relatórias das delegacias de polícia de todo o país e parecem que estes acontecimentos estão imunes à ausência de aglomerações públicas. Estes dados desmentem as ideias difundidas nas redes sociais de que no Brasil hoje só se morre de Covid-19. O país teve uma alta de 8% no número de assassinatos só no mês de abril deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. É o que mostra o índice nacional de homicídios criado pelo G1, com base nos dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal. Já considerando o período de janeiro a abril, foram 15.868 vítimas de assassinatos neste ano, contra 14.580 em 2019, uma diferença de 1.288 mortes.

Vale lembrar que a alta no início deste ano vai na contramão de 2019, que teve uma queda de 19% no número de assassinatos em todo o ano. O Brasil teve cerca de 41 mil vítimas de crimes violentos no ano passado, o menor número desde 2007, ano em que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública passou a coletar os dados. Até o mês de janeiro desta ano, as mortes violentas estavam em queda. Quando se esperava que, com menos pessoas nas ruas, estes índices cairiam ainda mais, deu-se um reverso. 

Curioso é verificar que o mês de março foi o período em que a pandemia do coronavírus ganhou força no Brasil, tendo sido a primeira morte registrada em 16 de março, em São Paulo. Neste mesmo mês, vários estados começaram a aplicar medidas de fechamento de comércio e isolamento social. Em abril, praticamente todo o Brasil conviveu com medidas de isolamento, com a circulação de pessoas mais restrita e, mesmo assim, houve um aumento de assassinatos de forma generalizada.

No G1, Bruno Paes Manso, do NEV-USP, explica que “esse tipo de homicídio não está relacionado a conflitos cotidianos e ocasionais, como os decorrentes de briga em bar, em trânsito etc. São assassinatos relacionados a disputas de poder, de mercado, de território, envolvendo execuções sumárias previamente planejadas. Os homicidas vão buscar a vítima não importa onde ela esteja”, afirma. Paes Manso afirma que é importante entender os motivos por trás disso. “Será que as autoridades estaduais estão fragilizadas com a crise criada pelo coronavírus? Será que essa percepção de fragilidade levou quadrilhas rivais a disputarem poder e territórios ou a polícia a agir com excesso de violência?”, questiona.

Agora, o inacreditável é saber que os maiores índices de aumento desta violência estão nos estados do Nordeste do Brasil. Ainda no mesmo G1, Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, também cita o estado do Ceará e seus números elevados. Para ela, um dos principais motivos por trás da alta de assassinatos no país foi o motim de parte da Polícia Militar que aconteceu no estado em fevereiro. O Ceará, inclusive, foi o estado com a maior escalada de violência do Brasil. Nos primeiros quatro meses do ano, o número de vítimas quase dobrou, passando de 759 para 1.514.

Mas não foi só no Ceará onde este aumento foi acentuado. O Piauí vem numa segunda posição, seguido de perto por Maranhão, Bahia, Sergipe e Alagoas. A região contribuiu sobremaneira para o aumento de mortes em todo o país. Sozinha, ela teve um aumento de 25.7% no primeiro quadrimestre desse ano em comparação com o ano passado. Foram 7.274 assassinatos em janeiro, fevereiro, março e abril de 2020, contra 5.789 de 2019. No total, foram 1.485 mortes a mais. Mais curioso ainda é saber que, em 2019, a região tinha sido a responsável por puxar a queda nos primeiros meses do ano.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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