Economia

Quem vai pagar os rombos do Master, Binance e Ueno?

Antes de responder, é preciso, de uma maneira geral, colocar o que representa as crises do Banco Master, no Brasil, do roubo cibernético na Binance e da crise no banco Ueno, no Paraguay. Esses três casos parecem diferentes, mas representam uma mesma tendência: a fragilidade da confiança em sistemas financeiros cada vez mais complexos, digitais e interconectados.

No caso do Banco Master, ficaram claros o risco de liquidez e governança. O caso expôs problemas relacionados à liquidez (sem caixa para honrar os compromissos), qualidade dos ativos, gestão de riscos e fiscalização. O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial após identificar uma grave crise de liquidez e violações regulatórias, com crescimento acelerado sem sustentação adequada. Também é fácil perceber que o banco buscava retornos elevados, mas tinha dificuldade de transformar ativos em dinheiro quando investidores desejavam sacar recursos, dependendo basicamente da confiança dos depositantes e do mercado.

O caso da Binance foi risco tecnológico e cibernético. O problema não foi insolvência financeira, mas um enorme ataque cibernético. A corretora informou perdas de cerca de US$ 6,3 bilhões em ativos digitais após uma invasão atribuída por investigadores a um grupo ligado à Coreia do Norte. A tecnologia aumenta a eficiência, mas também amplia a superfície de ataque. Um único ponto vulnerável pode gerar perdas bilionárias. O fator humano continua sendo decisivo, já que o ataque teria começado com engenharia social e comprometimento de funcionários.

 O caso mais recente, o Ueno Bank, do Paraguai passa por risco sistêmico e político, com caso mais abrangente. O banco foi considerado insolvente após investigações sobre sua situação financeira e operações ligadas ao grupo controlador. A crise afetou milhões de clientes e desencadeou uma crise política nacional. Aqui, tudo passou de uma concentração excessiva de poder financeiro, relações estreitas entre sistema financeiro e política e possíveis falhas de supervisão. O Ueno se tornou grande demais e não podia falhar

 Em todos eles, a verdadeira moeda afetada foi a confiança. Quando esta desaparece, depositantes correm para sacar dinheiro, investidores vendem ativos, clientes abandonam plataformas, governos e reguladores precisam intervir. Em termos históricos, essas crises mostram que os riscos financeiros modernos não vêm apenas de recessões ou inflação. Eles podem surgir de má governança, vulnerabilidades tecnológicas, conflitos de interesse políticos, concentração de recursos em poucas instituições.

Mas, afinal, quem vai pagar esta conta, já que não há almoço de graça no sistema capitalista? Quem vai se responsabilizar, se os três episódios mostraram que o sistema financeiro moderno depende mais de confiança digital, governança e fiscalização do que apenas de dinheiro em caixa? Quem vai cobrir o rombo para evitar que a crise possa se espalhar rapidamente?

Em grande medida, somos nós que pagaremos esta conta, mas não de forma igual para todos.

Quando ocorre uma crise financeira, a conta costuma ser distribuída entre vários grupos. Os acionistas são geralmente os primeiros a perder, porque o valor da empresa pode desaparecer. Além disso, credores e investidores podem sofrer prejuízos diretos, clientes podem enfrentar bloqueio temporário de recursos, perda de acesso a serviços ou incerteza. Por fim, governos e bancos centrais frequentemente precisam mobilizar recursos, garantias ou mecanismos de proteção para evitar contágio ao restante do sistema. É aqui que todos nós entramos. A sociedade acaba pagando de forma indireta.

Isso tudo porque há aumento de custos para o sistema financeiro, fundos garantidores precisam ser acionados, o crédito fica mais caro, a confiança diminui e os investimentos recuam, recursos públicos precisam ser direcionados para administrar a crise. No caso da Binance, a empresa afirmou que cobriria as perdas dos usuários com recursos próprios, buscando evitar que os clientes absorvessem o prejuízo diretamente.

O ponto mais profundo é que existe um fenômeno conhecido como “socialização das perdas e privatização dos ganhos“. Em épocas de prosperidade, os lucros ficam concentrados em acionistas, executivos e investidores. Quando ocorrem crises severas, parte dos custos pode acabar sendo absorvida pela coletividade por meio de garantias, resgates, inflação, aumento de impostos ou redução do crescimento econômico.

Por isso, crises como as do Banco Master, da Binance e do Ueno Bank levantam sempre a mesma questão: quem ficou com os ganhos durante o período de expansão e quem está ficando com os riscos depois que os problemas apareceram? Em termos econômicos e históricos, uma sociedade saudável tenta fazer com que o maior peso recaia sobre quem assumiu os riscos e recebeu os benefícios, e não sobre o cidadão comum. O debate político costuma surgir justamente quando as pessoas percebem que isso não está acontecendo.

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