É lorota a nossa independência?
Não! Não é lorota! Somos, sim, uma nação independente, e foram precisos 204 anos para que este edifício fosse construído. Agora, a independência absoluta é impossível. Ela é buscada, construída, solidificada dia após dia. E corremos muitos riscos. Veja o caso da Ucrânia. De repente, um maluco resolve invadir o país e provocar uma guerra que já matou quase 1 milhão de pessoas. Não há garantias para a eterna independência. Mas o que temos até aqui? O que poderemos considerar como conquistas ou como coisas que ainda precisamos conquistar? Vejamos os pontos positivos dos nossos 204 anos de liberdade e aquilo que ainda o país não conquistou para o seu povo.
Comecemos pelas coisas boas.
O que deu certo no Brasil até aqui? Numa visão panorâmica, alguns pontos que podem ser considerados acertos até aqui são:
1 – Institucionalização da democracia: apesar de crises e retrocessos, o Brasil conseguiu consolidar eleições regulares, sufrágio universal e alternância de poder — algo que não é trivial em países com histórias de instabilidade.
2 – Expansão de direitos sociais: a Constituição de 1988 marcou um avanço ao garantir saúde, educação, previdência e assistência social como direitos fundamentais.
3 – Diversidade cultural e liberdade de expressão: a República permitiu que manifestações culturais, religiosas e artísticas florescessem sem censura permanente, fortalecendo a identidade plural do país.
4 – Desenvolvimento econômico e urbano: houve períodos de crescimento que transformaram o Brasil em uma das maiores economias do mundo, com avanços em infraestrutura, indústria e agricultura.
5 – Protagonismo internacional: o Brasil conquistou relevância em fóruns globais, como ONU e Mercosul, e se tornou referência em temas como meio ambiente e energia renovável.
6 – Inclusão política: a ampliação da participação de mulheres, negros e trabalhadores na vida política, ainda que desigual, é um passo importante em direção a uma democracia mais representativa.
Claro que é possível citar outros pontos, mas, de uma forma genérica, acabam caindo no rol destes seis pontos elencados.
Mas e os pontos negativos? O que estes 204 anos ainda não conseguiram implementar e que é fundamental para a consolidação como nação de primeiríssimo mundo?
Se olharmos para os pontos frágeis, há alguns aspectos fundamentais que ainda não se consolidaram plenamente:
1 – Desigualdade social persistente: o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo. A concentração de renda e de oportunidades mina a ideia de cidadania plena.
2 – Educação de qualidade universal: embora o acesso tenha se ampliado, a qualidade da educação pública ainda é muito desigual, o que compromete a formação crítica e a mobilidade social.
3 – Sistema político pouco representativo: o modelo eleitoral e partidário ainda favorece elites econômicas e políticas, dificultando a renovação e a real representatividade da população. São poucos os nomes que conseguem romper privilégios.
4 – Corrupção estrutural: apesar de avanços no combate, a corrupção continua sendo um problema crônico que fragiliza instituições e a confiança da sociedade.
5 – Segurança pública e violência: o Brasil ainda não conseguiu garantir um ambiente seguro para todos. A violência urbana e rural, além da atuação de facções criminosas, são desafios permanentes.
6 – Efetividade da justiça: o sistema judiciário é lento, caro e muitas vezes inacessível para os mais pobres, além da corrupção endêmica, o que compromete a ideia de igualdade perante a lei. Venda de sentenças, juízes que têm lado ou devem favores, privilegiados que descumprem sentenças transitadas em julgado… Tudo isso acaba contribuindo para negativar o trabalho da justiça, mesmo diante de avanços em determinadas áreas.
7 – Desenvolvimento sustentável: a exploração predatória de recursos naturais e a dificuldade em equilibrar crescimento econômico com preservação ambiental mostram que ainda falta uma visão de longo prazo.
8 – Inclusão plena de minorias: apesar de avanços, mulheres, negros, indígenas e populações periféricas ainda enfrentam barreiras estruturais para exercer plenamente seus direitos.
Sim, a lista dos pontos negativos é maior que a dos pontos positivos porque o Brasil conseguiu instituir a democracia formal, mas ainda não consolidou a democracia substantiva — aquela em que todos têm acesso real a direitos, oportunidades e justiça.
Estes pontos estarão bem distantes quando ficarmos assistindo pela TV ou redes sociais uma disputa eleitoral sem lastro, significância ou futuro. É possível que você fique irritado quando um repórter pergunta ao seu candidato sobre o provável envolvimento dele num processo envolvendo a queda de um banco. O candidato ficar irritado é normal. Não é normal você, que escolhe quem vai administrar o país, virar admirador de político, sentir as dores dele e defendê-lo antes mesmo da apuração do fato.
Estamos distantes destes 8 pontos por escolhermos candidatos pela via do ódio. Se um candidato tem a possibilidade de vencer aquele personagem que odiamos, votamos de olhos fechados, mesmo que não apresente nada para melhorar o país, ou apenas passe o tempo defenestrando o adversário, alimentando o nosso ódio do outro, sem ao menos nos preocuparmos com o seu currículo.
Até quando se trata de corrupção, nossa maior desgraça, e uma espécie de câncer matador de repúblicas, só odiamos a malversação do outro. Vibramos quando um juiz escancara as informações sigilosas de um certo processo, que comprova o envolvimento de uma figura da nossa república, para o bem ou para o mal, mas esquecemos que uma parte sigilosa ainda guarda o também envolvimento de outras figuras importantes. Se estas que ficaram ocultas são da minha banda, o juiz é meu herói.
Nós teremos mais 204 anos de independência se persistirmos na busca da eticidade pública. Você pode ter lado, sim. Você pode escolher livremente o seu candidato ou sua candidata. Mas, para evoluirmos, é preciso que o país tenha mais importância que o candidato ou partido e que coisas quase esquecidas como ética, moral, honra, civilidade, honestidade, só para ficar em algumas, sejam o norte intransigente do nosso agir.
Uma vez, um homem se candidatou. Ele saiu da condição de operário de obras e agora disputava a prefeitura de uma cidade. Conversou com a gente e disse que faria certas coisas para melhorar o município. Foi eleito. Quatro anos depois, pediu nova chance, mas as coisas prometidas não foram feitas. Ele alegou que não teve oportunidade de fazer e disse que era um igual a nós, um homem que veio do povo e que queria uma segunda chance. Perdeu a eleição. Ou seja, não podemos mais errar. Não dá para empurrar este país com a barriga, deixando seus problemas se acumularem. Isso, sim, é lorota! Nossa independência é fato, por mais que alguns, usando nossa camisa verde e amarela, preguem nossa posição de joelhos ante algumas nações.
