Araguatins, lar de Boleslaw

Neste mais novo episódio de BR-230 – Transamazônica – de Cabedelo a Lábrea, Contraprosa chega a Araguatins, município do interior da região Norte do estado do Tocantins, sempre na margem direita do rio Araguaia. Araguatins fica distante da Transamazônica por cerca de 8 km, ligado à rodovia pela TO-010. Sua área territorial é de 2.633,278 km², onde vive uma população de 31.918 pessoas, pelo censo de 2022, o que permite uma densidade demográfica de 12,12 hab/km². O município tem limites com Ananás, Augustinópolis, Axixá do Tocantins, Buriti do Tocantins, Esperantina, São Bento do Tocantins, São Sebastião do Tocantins, Sítio Novo do Tocantins — todos no estado do Tocantins e Palestina do Pará, Brejo Grande do Araguaia, São Raimundo do Araguaia e São João do Araguaia — todos no Pará. A distância para Palmas é de 601 km e o IBGE estimou sua população para o ano de 2025 em 33.286 habitantes.

Logo que chegamos a Araguatins, fomos direto para a Praça dos Pioneiros, onde fica o cais do porto do rio Araguaia. Ao lado desta praça está uma outra, a da Bandeira, onde fica a igreja matriz de São Vicente Ferrer. Para quem chega ao lugar pela primeira vez, a palavra deslumbramento ganha significado. Araguatins é uma cidade incrivelmente bela. Pesquisando sobre o município, descobrimos que, de cada 4 pessoas, uma é jovem de 0 a 14 anos. Portanto, o futuro está garantido, claro, se a garotada se dedicar aos estudos. Ficamos hospedados no Hotel Mogno, o mais antigo da cidade, criado pelo polonês Boleslaw Daroszewski, que será um capítulo à parte neste documentário.

A história de Araguatins começa em 1867, quando a região onde foi erguida a sede municipal começou a ser povoada. O primeiro morador foi Máximo Libório da Paixão. No ano seguinte, estabeleceu-se no local Vicente Bernardino Gomes, considerado o fundador da povoação, em 9 de junho de 1868. O primeiro nome da localidade foi São Vicente do Araguaia. A vida religiosa do povoado começou em 1878, sob a orientação de Frei Salvino de Remini. No final do século XIX, Tocantinópolis (então chamada Boa Vista do Tocantins) foi palco de intensos conflitos políticos e sociais, conhecidos como a Primeira Revolta de Boa Vista (1892), que refletiam disputas oligárquicas locais e projetos separatistas na região norte de Goiás, hoje Tocantins. Esses movimentos buscavam autonomia frente ao poder central de Vila Boa de Goiás e até mesmo anexação ao Maranhão. Isso afetou de alguma forma São Vicente do Araguaia, que terminou o século ainda como uma povoação. São Vicente do Araguaia pertencia ao município de Boa Vista do Tocantins.

Com a chegada de trabalhadores vindos de diversas regiões que passaram a fixar residência na localidade, no início do século 20, perceberam que era preciso organizar o local. Não demorou muito para São Vicente do Araguaia passar à condição de vila, como município independente, pela Lei n.º 426 de 21 de junho de 1913, sendo logo depois regulamentada pelo decreto n.º 3.639 de 5 de março de 1914. A instalação ocorreu em 12 de novembro de 1914. Como a área do município era enorme, com anexações e criações, em divisão administrativa referente ao ano de 1933, já contava constituído de 4 distritos: São Vicente do Araguaia, Peneaúma, Petrolina do Lontra e Santo Antônio da Cachoeira. Em 1938, duas modificações na nomenclatura aconteceram: Petrolina do Lontra passou a chamar-se Araguaiana e São Vicente do Araguaia virou apenas São Vicente. Mesmo assim, o município contava ainda com 4 distritos: São Vicente, Araguaiana (ex-Petrolina do Lontra), Peneaúma e Santo Antônio da Cachoeira. Cinco anos depois, chegam novas mudanças de nomes. Pelo Decreto-lei Estadual n.º 8305, de 31 de dezembro de 1943, o município de São Vicente passou a denominar-se Araguatins. No mesmo decreto, o distrito de Santo Antônio da Cachoeira passou a chamar-se Itaguatins.

Mas a novela estava longe de ter fim. Uma reviravolta acontece antes do fim da Era Vargas. Em 1945, a sede do município foi transferida para Itaguatins, que passou a ser distrito-sede. Araguatins passou a ser simples distrito do município de Itaguatins. Após três anos de transferência da sede, nasce mais uma vez o município, criado pela Lei nº 184 de 13 de outubro de 1948, desmembrado de Itaguatins e instalado em 1º de janeiro de 1949, com apenas um distrito-sede, ainda com território no estado de Goiás. Com a criação do Estado do Tocantins em 1989, Araguatins passa a integrá-lo. O nome da cidade nasceu da junção dos dois rios Araguaia e Tocantins, que se unem mais ao norte, por sugestão do prefeito Antônio Carvalho Murici. Em 1956, lei municipal cria o distrito de Xambioá (ex-povoado de Xambioazinho) e este é anexado ao município de Araguatins. Dois anos depois, Xambioá vira município e é desmembrado de Araguatins. Em 1960, é criado o distrito de Ananás, que vira também município independente em 1963. Em 1964, são criados dois distritos: Natal e São Bento. Em 1988, Araguatins tem três distritos: Araguatins, Natal e São Bento. Pela Lei Estadual n.º 251, de 20 de fevereiro de 1991, desmembra-se de Araguatins o distrito de São Bento, elevado à categoria de município com a denominação de São Bento do Tocantins. Atualmente, o município é constituído de 2 distritos: Araguatins e Natal. Além disso, há um povoado que se destaca pela sua localização: Macaúba, também servido pela BR-230.

A grandeza de Araguatins é um conjunto de esforços de inúmeras pessoas. Algumas delas extrapolam os limites do município. Para ficar só num exemplo, vamos falar de um polonês, Boleslaw Daroszewski, primo do Papa João Paulo II, nascido nos Estados Unidos, mas, como filho de poloneses, considerava-se como tal. Seus pais queriam que ele virasse médico, mas acabou na GDYNIA, escola naval polonesa. Em 1938, chegou ao Brasil e conheceu Belém. Em 1939, já participava de batalhas navais na 2.ª Guerra Mundial. Nunca mais viu o pai e sua namorada. Chegou a ser alertado de que não precisava participar das batalhas por não ter nacionalidade polonesa, mas lutou mesmo assim. Depois da guerra, veio ao Brasil e por aqui ficou. No navio que o levou até Recife, conheceu os herdeiros e donos da Cia. de Tecidos Paulista, que tinha fábrica em Paulista-PE e Rio Tinto, na Paraíba. Como virou funcionário da empresa e chegou a Rio Tinto, lá conheceu a família Galvão e se apaixonou por Marineth Galvão, que conheceu num baile. Com ela se casou em 1948. Um dia foi administrar a fazenda Abiaí, também dos mesmos donos da fábrica de tecidos, que ficava perto de João Pessoa. Mais tarde chegou ao Rio de Janeiro; depois foi trabalhar em Ceres, onde nasceu o seu terceiro filho. E foi após aceitar uma proposta de uma madeireira que ele acabou em Araguatins.

Boleslaw, após o fim do ciclo da extração de mogno, já estava muito enraizado para deixar a cidade. Por ali extraiu esmeraldas, que foi possível, chegou a ter uma fazenda chamada São José da Casa das Pedras, localizada no lado Araguaia do Pará. Lá morou por muito tempo e lá fez o parto do seu 5º filho: Boleslaw Júnior, que é poeta, membro da Academia Tocantinense de Letras, formado em engenharia civil e chegou a ser prefeito de Araguatins. Além dele, os outros são Wanda, Halina, Jan e Monika. Tentou fundar um parque nacional de proteção ao mogno, mas não houve interesse. Ele mesmo chegou a plantar mudas; inclusive, ainda há árvores plantadas por ele em Araguatins. O primo do Papa João Paulo II, Boleslaw Daroszewski, viveu 96 anos. Sua morte veio numa quarta-feira, 13 de maio de 2015, em Araguatins, vítima de insuficiência cardíaca. Descansa no cemitério público da cidade que abraçou para todo o sempre. Sua história está contada no livro de sua autoria, “Juventude, Guerra, Aventura”, já em sua 2.ª edição.
