Caravelas: Alquimia entre História, Beleza Natural e Cultura

O rio Caravelas foi descoberto em 1503 por Américo Vespúcio ou Gonçalo Coelho. Durante o tempo em que o Brasil esteve dividido em capitanias hereditárias, sempre pertenceu a Porto Seguro e a região foi doada a Pero de Campos Tourinho, por Carta régia de 27 de maio de 1534. Com o fracasso da capitania, por desinteresse e constantes ataques dos índios Tupiniquins, a vila de Caravelas nasce em 1581. O município só é criado em 1700. Em 11 de Maio de 1823 travou-se aqui um combate entre a marinha portuguesa e as forças brasileiras, durante a guerra da independência. Pela Lei Provincial nº 521, de 23 de abril de 1855, passou à categoria de cidade. Completará em 2020 exatos 165 anos. Era um dos mais prósperos lugares do extremo sul baiano. Hoje, Caravelas tem cerca de 23 mil habitantes e vive basicamente do turismo. É um dos três pontos de embarque para o arquipélago de Abrolhos, localizado a 72 quilômetros mar a dentro.

Não é preciso citar a grande quantidade de atrativos naturais que um turista dispõe para desfrutar em Caravelas. Impossível é passar pela cidade e não parar para visitar a Igreja de Santo Antônio. Sua história de construção começa em 1725, pelo padre jesuíta Antônio do Espírito Santo. Foi concluída em 1750, com reformas posteriores. Em 1755, tornou-se sede da Paróquia de Santo Antônio de Caravelas. De 1858 a 1863, a Igreja foi reformada. Até 1962, Caravelas era uma paróquia subordinada à Diocese de Ilhéus, quando foi criada a nova Diocese de Caravelas pelo Papa João XXIII, em de 21 de julho daquele ano. Em 1983, o Papa João Paulo criou a Diocese de Teixeira de Freitas/ Caravelas e a sede da Diocese foi transferida para Teixeira de Freitas.

Bem perto da igreja está o Beco das Artes, encravado em casarios dos séculos XVIII e XIX. É ponto de visita inevitável. Foi perto dali, na pousada Beco Shangri-lá, cujo proprietário é um esquerdista que só vê defeitos na direita, que conhecemos o secretário de Cultura Jaco Galdino. Este nos apresentou o barracão cultural e sede do Arte Manha. No vídeo ele fala das dificuldades em produzir cultura na cidade.

Mas a impressão que se tem é que a vida de Caravelas estava ligada à estrada de Ferro Bahia-Minas. Tanto que entrou em declínio econômico quando a ferrovia deixou de funcionar em 1966. Foram mais de 80 anos flertando com o progresso. A construção da via férrea de 600 quilômetros teve o seu primeiro trecho de 149 quilômetros, entre Serra dos Aimorés-MG e Caravelas-BA, inaugurado em 1882. Com a falta de dinheiro e os constantes ataques de índios, somente em 1898 foi inaugurada a estação de Teófilo Otoni. O baque maior sofrido pela ferrovia foi o surgimento do asfalto.

Muitas estações podem ser encontradas nos locais por onde passou a ferrovia. Uma delas fica em Helvécia, distrito de Nova Viçosa, município vizinho de Caravelas. Lá a preservação fica por conta da prefeitura do município e há uma funcionária que tem informação na ponta da língua para qualquer dúvida. Fora disso, o que resta é ouvir a música Ponta de Areia, de Milton Nascimento. Foi no distrito citado na canção, localizado bem próximo à Caravelas, à margem do rio do mesmo nome, que ficava o porto onde saíam as mercadorias com destino a Minas.

Verdade seja dita sobre Caravelas: quem teve a oportunidade de visitar a cidade é acometido de um desejo repentino de não mais sair de lá. Há uma alquimia que mistura história, beleza natural e riqueza cultural, tudo num só lugar. É difícil resistir.

Landisvalth Lima

Professor, escritor e jornalista. Editou os jornais A Voz da Região (Serrinha-Ba), Tribuna do Nordeste (Ribeira do Pombal-Ba) e A Voz do Sertão (Heliópolis-Ba). Trabalhou na Rádio Difusora de Serrinha e foi repórter colaborador dos jornais Correio da Bahia e Jornal da Bahia. É autor dos livros A mulher do Pé de Cabra, Cariri Sangrento e A Esquerda Bastarda (romances); Patologias Educacionais do Semiárido Baiano (Tratado) e O Avesso do Exato (poesia). Foi professor de Língua Portuguesa dos colégios Brasilia e Colégio do Salvador (Aracaju-Se), Waldir Pires (Heliópolis-Ba), Evência Brito (Ribeira do Pombal-Ba) e Colégio Professor João de Oliveira (Poço Verde-Se). Atualmente mantem o Landisvalth Blog, é professor e Vice-Diretor do Colégio Estadual José Dantas de Souza e administrador e editor do Contraprosa.

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